“As políticas de comunicação devem se fazer de forma transnacional, por isso fiz um recorte na América do Sul”

André Lourenço é jornalista, mestre e doutorando em Comunicação; o pesquisador aborda políticas de comunicação em conteúdos digitais

 

Por Camila Gabrielle

 

A escolha do jornalismo

“Acho que quase todo mundo que escolheu jornalismo na década de 90, escolheu pelo encantamento por televisão”, explica André Lourenço, ressaltando que era aficionado por telejornalismo. Além disso, ele considerava a profissão interessante e gostava da instantaneidade e da linguagem televisiva.

Em 2006, ele se formou em jornalismo pela Universidade do Sagrado Coração (USC), em Bauru, interior do Estado de São Paulo. Na graduação, André começou a se debruçar em pesquisas, mudando seu direcionamento e interesses profissionais.

 

Interesse pela pesquisa

O encantamento, principalmente pelo telejornalismo, chegou ao fim logo no começo da graduação e de sua iniciação científica.Eu me debrucei em entender o espaço do jornalismo na sociedade, o processo noticioso, as relações de poder e as relações econômicas. Quando me deparei com isso, o encantamento passou. Continuo a entender a relevância do jornalismo, do trabalho do jornalista em sociedade, mas aquela visão, de alguma maneira fantasiosa, acabou.”

Foi a partir deste momento que André Lourenço começou a imaginar outros campos. “Eu percebi a profissão para além da prática jornalística. Eu me percebi jornalista para pensar sobre o jornalismo e não para atuar e isso me despertou como pesquisador”. Ele começou a projetar sua carreira acadêmica ainda na graduação, e a “forjar o currículo na área acadêmica”.

Após sua formação, André foi para o mercado de trabalho e tentou conciliá-lo com o mestrado. “No fim do primeiro semestre, há uma reorganização de orientadores e fui realocado para ingressar no Laboratório de Estudos em Comunicação, Tecnologia e Educação Cidadã( Lecotec), ainda que de forma distante. Eu era repórter de um jornal diário e fazia mestrado em Bauru.”

 

Participação no Lecotec

“Prefiro dizer que minha participação no Lecotec começou junto ao doutorado. O mestrado foi turbulento, eu trabalhava, o mercado de trabalho parecia mais certo e eu só realizava minha pesquisa, o que era desgastante. Durante o doutorado, estava dando aula no curso superior há três anos e me vi muito isolado do ponto de vista intelectual – sempre lia as mesmas coisas, as mesmas bibliografias e isso me incomodou”, comenta, explicando o motivo pelo qual decidiu participar de alguns projetos dentro do laboratório, discutir iniciações científicas e outros assuntos.

“Participar de um laboratório de pesquisa é ter a oportunidade de discutir aquilo que você faz em tempo real. Você não está sozinho em seus objetivos e consegue debater aquilo que lhe incomoda, que você não compreende. Além disso, a existência de pessoas pensando diferente de você exige que você se esforce para acompanhar. É uma troca de conhecimento. Me forjou como um sujeito social de pesquisa e colaborativo de pesquisa. Acho que este espaço é fundamental neste sentido”, completa sobre a importância do laboratório para sua formação pessoal.

 

Pesquisa

“Eu tenho uma pegada para as políticas de comunicação e fui discutir isso”, explica André Lourenço.“Fui pesquisar políticas de comunicação em conteúdos digitais. Pensei em âmbito nacional, mas depois vi que não era possível. As políticas de comunicação devem se fazer de forma transnacional, por isso fiz um recorte na América do Sul. Minha pesquisa é basicamente compreender a partir das deliberações do Mercosul e Unasul, dois órgãos de colaboração internacional, como foram construídas políticas e estratégias de comunicação para a América do Sul – caso tenham ocorrido”.

 

 

Intercâmbio no Equador

Francisco Galvez Moreno, professor do Centro Internacional de Estudios Superiores de Comunicação para América Latina (Ciespal), veio para a Universidade Estadual Paulista (Unesp), no começo de 2016, fazer uma disciplina condensada com o objetivo de debater as políticas nacionais. “Conhecendo a história do Ciespal, houve identificação com a minha perspectiva. Ao final da aula descobri que eles aceitavam estudante para estágio em intercâmbio”, diz André Lourenço.

André ficou de fevereiro a julho de 2017, no Equador, totalizando quatro meses de estágio. O Ciespal é uma entidade com mais de 50 anos que pesquisa política de comunicação na América Latina e tem como conceito a “Comunicação para o Desenvolvimento”. A entidade surge durante um período de deficit de crescimento dos países na América Latina.

“Pensar a comunicação para o desenvolvimento é pensar a comunicação como ferramenta de desenvolvimento social e de autonomia cultural para países que são dependentes culturalmente de outros no centro do capitalismo mundial”, explica o pesquisador.

“Eu fui para o Ciespal na ânsia de ser o mais produtivo possível e, junto com meu orientador, decidimos que resgataríamos toda tradição de pesquisa em comunicação para embasar minhas discussões. Então eu passei quatro meses mapeando e revisando todas as publicações desde 1963 até 2016 do Ciespal para conseguir fazer uma trajetória da construção de conceito e aplicá-lo à análise das políticas digitais.”

 

Importância social

Pesquisar políticas de comunicação nos conteúdos digitais é importante, segundo André Lourenço, pois “no momento em que você sabe a diretriz internacional acordada pelo Brasil e por outros países, nós conseguimos projetar ou pretendemos projetar como provavelmente serão as políticas de comunicação para os próximos anos, no âmbito dos conteúdos digitais.”

 

Evento

No dia 19 de outubro vai acontecer o “Comunicação para o Desenvolvimento”. Este evento contará com a presença do pesquisador André Lourenço, que contará sobre sua experiência em outro país, além de destacar alguns pontos de sua pesquisa, que ainda não está finalizada.

“Este evento será divido em dois: primeiro, quero contar minha experiência de imersão cultural em outro lugar, o processo de encontrar suas saídas do dia a dia, a importância deste intercâmbio, a necessidade de aprofundamento dos campos teóricos. Segundo, debater um pouco sobre duas teorias em especial, uma que é o estruturalismo latino-americano que a partir desta corrente teórica de análise do capitalismo periférico latino, a discussão sobre comunicação para o desenvolvimento. Entender nossa própria realidade, eu acho que isso tem faltado na academia, as pessoas olharem os problemas latino-americanos, a partir da ótica latina- americana.”

Fica então o convite! O evento será às 16h30 no auditório da pós-graduação da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC) da Unesp/Bauru.

 

 

Deixe uma resposta